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segunda-feira, 17 de maio de 2010

O CHAFARIZ

O silêncio das ruas distantes revestia as paredes da Catedral de Nossa Senhora da Conceição. Silêncio que dormia rente às águas escuras do Rio Una ou adormecia no estanque chafariz chamado Cocão do Padre. Dizem que antigamente, à luz de vela, uns olhos de arcanjo anunciava a lua derramada no banho da meninada. Meninos chispando de frio, que depois fugiam como vaga-lumes; besouros correndo do balanço da chama votiva, deixando no escuro da sacristia, lagartixas e passarinhos que mataram à petecadas. Travessura refletindo o luar, o tempo católico, o diálogo de pecado e castigo:

- Na cidade, Padrinho, o diabo não dorme?
- Numa cidade pequena, meu Afilhado, até uma chafariz prepara surpresas capazes de atrair as tristezas de Deus!

Todos escutavam o luar, pois jorrava água no chafariz. Escutavam a chama nascer da cera derretida, porque na maioria das casas não havia luz elétrica. Escutavam o arcanjo noturno chegar, falando para dormirem em paz, ouvindo a voz que marcava cada recanto de Palmares de antigamente:

- Durmam, meninos! Aqui ficaremos e nada mudará com os anos... A não ser os novos poetas anunciados por um de nossos arcanjos!

No chafariz dormia a Poesia. Às seis horas da noite, alguns meninos em bando, vozes jorrando fazendo música, subiam a ladeira tropeçando nas pedras. Meninos do Alto do Inglês fechando a garganta da terra, abrindo as torneiras do tempo das velas votivas. Chama devota escondida do progresso, acendia um missal para o arcanjo de Deus:

- Como mesmo se chama o chafariz?
- Cocão do Padre, Cocão do Padre!

Um cascudo invertido, considerando que doia muito aqueles do Padre Abílio. A careca do padre representada ali, desprotegida à luz do dia, significava vingança e respeito.

(Contos do Fanal da Luz  - Tertúlia em Prosa, 2004)